Trecho “Confesso que não senti só medo em meus vôos. Senti sofrimento, e até desespero. Certa vez num balão, ao entardecer, contornava o mar sobre as montanhas. O tempo estava bom, mas logo notei que ameaçava uma tempestade. De repente, um vento violento atirou-me para trás na cesta e levou o balão para o alto mar.
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Tinha consciência de um grande perigo. Uma espécie de alegria selvagem dominava os meus nervos. Como explicar isto? Lá no alto, no balão, na solidão negra, entre o fulgor dos relâmpagos que a rasgavam e o faiscar dos raios, eu me sentia como parte integrante da própria tempestade!
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Depois de muito tempo, achando que estava sobre alto mar e que não escaparia dali com vida, ouvi abaixo o som do vento forte balançando árvores! Então, a uma velocidade vertiginosa, fui esbarrando nos galhos afiados das árvores, o corpo todo sendo arranhado, a barquinha se desfazendo, a roupa em frangalhos. Joguei fora a âncora. Ela arranhava as árvores mas não se fixava. Quando já me considerava perdido, a âncora se fixou em algo de repente, e fui arremessado com toda a violência para fora do que tinha sobrado do cesto. Lembro-me de atravessar galhos, e galhos, e folhas e mais galhos...”

Trecho baseado em depoimentos de Santos Dumont extraídos de sua obra "O que eu vi, o que nós veremos" (São Paulo, 1918)